Samu, 52h de duração e iPhone 17 como prêmio: o que está por trás de 'reality show' improvisado que virou caso de polícia em SP
17/10/2026
(Foto: Reprodução) 'Desafio do iPhone': o que está por trás de 'reality show' que virou caso de polícia em SP
Quem passou pela Avenida Armando de Salles Oliveira, uma das principais de Piracicaba (SP), entre a manhã de sábado (10) e segunda-feira (12), deparou-se com um grupo de pessoas em pé, ao redor de uma caminhonete, com as mãos na lataria. Tratava-se do 'Desafio do iPhone'.
Promovido por uma loja de celulares e uma de motos elétricas a título de propaganda, o "reality show" improvisado foi transmitido pelas redes sociais e reuniu cerca de 30 participantes. Levava para a casa os prêmios principais, entre eles um iPhone 17, quem aguentasse por mais tempo no local.
A maratona durou 52 horas e terminou com um competidor socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Ela não tinha autorização do Ministério da Fazenda para ocorrer, fato que fez com que a Secretaria de Apostas da pasta abrisse uma investigação para apurar o ocorrido, o que pode resultar em penalidades aos responsáveis pelo evento – saiba mais abaixo.
O evento também virou caso de polícia. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) afirmou que a Polícia Civil abriu uma investigação e citou a participação de um adolescente de 17 anos. O caso foi registrado como "perigo para a vida ou saúde de outrem".
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O g1 conversou com participantes do desafio que relataram gratidão porque o evento abriu a possibilidade de conquistar os prêmios para suprir realizações pessoais e necessidades financeiras, como o conserto da moto de trabalho, abrir um negócio e até construir o muro da própria casa.
Pessoas com as mãos em veículo durante participação no 'Desafio iPhone', promoção irregular e investigada pela polícia em Piracicaba
Alerta Piracicaba/Reprodução
Dinâmica do evento
O desafio foi transmitido nas redes sociais das duas lojas, pelo organizador e dono dos empreendimentos, chamado Lucas Barbosa, e por influenciadores digitais e páginas de notícias.
A ação foi promovida pela loja com o intuito de "gerar um entretenimento", como Lucas Barbosa definiu em um vídeo publicado durante o desafio.
Cerca de 30 participantes precisaram permanecer em pé em volta de uma caminhonete na frente da loja e com as mãos encostadas na lataria. Para concorrer aos prêmios, não era permitido tirar as mãos ou dormir.
'Reality show' feito por loja de celulares foi transmitido por perfil nas redes sociais
Reprodução/Redes Sociais
Já a hidratação e alimentação eram controladas de acordo com a vontade de Lucas Barbosa. Segundo alguns participantes, durante os três dias o acesso ao banheiro foi liberado uma vez, na madrugada de sábado para domingo, por um limite de três minutos e após uma votação entre os participantes.
Ao longo da dinâmica, que simulava uma espécie de 'reality show', Lucas se filmou e apareceu em vídeos em que oferece dinheiro e outros prêmios para as pessoas desistirem.
Além disso, um novo vídeo era publicado nas redes a cada eliminação, brincadeira ou desentendimento com participantes.
O responsável pelo 'reality' improvisado ficou no local e sem dormir durante toda a dinâmica, segundo os participantes ouvidos pela reportagem.
Quem levou o prêmio final foi a influenciadora de Piracicaba Laís Lima, que resistiu após a saída do vendedor Nilson Sousa - veja relatos abaixo.
Mulher desiste de 'Desafio do Iphone' e recebe R$ 200 de organização
Reprodução/Redes Sociais
Como fazer um desafio dentro da lei?
Para realizar qualquer distribuição gratuita de prêmios a título de propaganda, é preciso da autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. As ações incluem sorteio, vale-brinde, concurso ou operação semelhante, informou o órgão federal.
O 'Desafio do iPhone não tinha essa autorização, completou a SPA.
A SPA ressalta que desafios iguais ao realizado em Piracicaba exigem diretrizes rígidas de segurança, como limite de duração da prova, termo de compromisso e equipe de emergência (como o Corpo de Bombeiros) no local.
"Essas medidas servem como referência para a avaliação das condições de segurança e da integridade física dos participantes", informou a SPA.
O desafio realizado pela loja não tinha limite de duração de prova, como divulgado nas redes sociais. O g1 apurou que os participantes assinaram um termo de que estavam cientes dos riscos à saúde e isentavam a organização do evento, além de permitir o uso da imagem à organização. A prova também não tinha equipe médica ou Corpo de Bombeiros fixos no local.
Segundo a Subsecretaria de Fiscalização da SPA/MF, caso seja punida em processo administrativo, a empresa pode sofrer advertência, cassação da autorização, proibição de realizar novas promoções por até dois anos e multa de até 100% do valor dos prêmios oferecidos.
A Prefeitura de Piracicaba informou que o estabelecimento possui alvará regular para funcionamento comercial, mas não deu entrada em nenhum pedido de licença para evento. Segundo a prefeitura, o representante da loja apresentou apenas um autodeclaratório de evento de baixo risco e sem perturbação do silêncio, liberado exclusivamente para o sábado (10), das 10h às 22h.
Pessoas com as mãos em veículo durante participação no 'Desafio iPhone', promoção irregular e investigada pela polícia; Lucas Barbosa segura prêmios do desafio
Alerta Piracicaba e Reprodução/Redes Sociais
O que diz a organização
Em nota, Lucas Barbosa afirmou que a Prefeitura de Piracicaba expediu autorização para instalação temporária vinculada ao evento, no âmbito do processo municipal nº 171.114/2026 e que permanece à disposição das autoridades competentes para prestar os esclarecimentos que forem solicitados.
52h de exaustão, limites do corpo e socorro do Samu
O vendedor de loja Nilson Sousa, de 25 anos, permaneceu na disputa por 52 horas e conquistou o segundo lugar. Nilson conta que entrou no desafio por conta de questões financeiras e porque sonha em abrir o próprio negócio, uma hamburgueria.
"Eu perdi meu pai eu sou o único homem da casa. Minha mãe é diarista. Minha irmã saiu de casa recentemente. Então, eu sempre trabalhei, sempre fui guerreiro e isso me motivou. Isso pode mudar minha vida", conta Nilson.
"Eu fui até o meu limite mesmo [...] Eu chamei o Lucas e disse 'mande me puxar', porque eu não estava conseguindo tirar a mão do carro [...] eu saí, porque eu fui ao meu limite", relatou Nilson ao g1.
Socorrido por uma ambulância do Samu, ele foi levado a uma unidade de saúde, onde recebeu soro e hidratação.
Apesar do sofrimento físico e das críticas que leu na internet, Nilson destacou que o desafio abriu portas significativas, garantindo R$ 2 mil como prêmio da loja, joias, óculos e um tratamento odontológico gratuito, o que sempre foi uma vontade não atendida por questões financeiras.
"Abriu muito as portas, muita conexão que eu tive com pessoas boas ali. Todo mundo ali saiu feliz, foi algo que mudou a vida. Deus abriu essa oportunidade para mim", afirmou o vendedor.
Pessoas com as mãos em veículo durante participação no 'Desafio iPhone', promoção irregular e investigada pela polícia em Piracicaba
Alerta Piracicaba/Reprodução
Moto fundida, rifa comunitária e busca pelo sustento
A necessidade de manter o ganha-pão também motivou o motociclista de aplicativo Tadeu Vilela, de 42 anos, a enfrentar 38 horas de prova em pé. Ele entrou na competição com o objetivo de conseguir dinheiro para consertar o motor fundido da moto que usa para realizar entregas.
Tadeu acabou desclassificado na madrugada de segunda-feira após adormecer em pé e soltar uma das mãos da lataria. Apesar da frustração de ter saído da prova, ele ressaltou que a visibilidade nas redes sociais permitiu arrecadar doações e prêmios da comunidade local para a realização de uma rifa.
"Eu estava muito confiante, mas quando deu 38 horas de prova eu acabei pegando no sono de pé. Foi onde eu larguei uma das mãos", explicou Tadeu.
"Graças a Deus, eu gostei muito de ter participado e faria tudo de novo", conta.
Tadeu afirmou que a exposição fez com que ele fosse reconhecido na rua e que uma pessoa que lhe deu R$ 500 de presente para ajudar no conserto da moto.
Falta de estrutura médica e apelo por empatia
A cuidadora de crianças com autismo Laura Neves, de 25 anos, resistiu por 24 horas na competição e afirmou que foi pelo desafio e que pretendia vender o aparelho, se ganhasse, para construir o muro da própria casa.
Ela também apontou a ausência de suporte médico presencial no local durante a maratona. "A única falha de lá foi não ter deixado uma pessoa enfermeira ali com a gente", relatou Laura.
Apesar da ressalva, Laura reforçou que os competidores tinham motivações pessoais e pediu mais empatia do público diante das críticas exibidas nas redes sociais.
"As pessoas têm que ter mais empatia. A gente estava ali por um propósito. Mesmo se fosse por experiência ou por zoação, cada um sabe de si, cada um sabe onde seu calo aperta e todo mundo que estava ali estava com um propósito", concluiu a cuidadora.
Como conferir se um sorteio ou dinâmica é autorizada
Nenhum entrevistado soube informar se a competição possuía autorização governamental antes do início da prova.
O Ministério da Fazenda reforçou que, antes da participação em sorteios e ações do tipo, é possível verificar todas as promoções autorizadas por meio da consulta pública, no próprio site do órgão.
Site do Ministério da Fazenda para conferir autorização de sorteios e concursos promocionais
Ministério da Fazenda/Reprodução
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